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quarta-feira, 17 de março de 2010

DISCUTINDO SOBRE SONOPLASTIA - POR EDSON FERNANDO

O debate que desenvolvo abaixo nasceu a partir das reflexões  dos comentários da postagem “INTERVENÇÃO ‘URBANO’ COM TRILHA SONORA” de Aníbal Pacha. A discussão que proponho agora centra-se na questão: A operação da trilha sonora é apenas uma questão de escolha técnica?

Acredito que minha inquietação quanto à questão de como usar a sonoplastia (se com fone de ouvido ou com suporte externo) deixou de ser uma questão meramente técnica e passou a fazer parte da discussão da encenação dos projetos. Dois exemplos pra refletirmos: Se o meu projeto "Heróis" usasse, ao invés de suporte para sonorização externa, os fones de ouvido isso iria trazer quais desdobramentos do ponto de vista da encenação? Agora pensemos o mesmo no caso do teu projeto "Urbano", invertendo a proposição: Se usasses suporte para sonorização externa quais desdobramentos trariam pra tua encenação?

Respondendo ao primeiro exemplo penso que isso provocaria uma quebra no meu projeto, pois como bem percebeste entregar os fones sinaliza a oficialização do pacto ficcional, o gesto da entrega determina que é teatro, elimina-se as dúvidas, e, por conseguinte, o espectador conforma-se e comporta-se como um observador privilegiado. A condição de observador, no caso do meu projeto, é tudo que devo evitar pois a intenção é exatamente instigar brechtianamente as pessoas a refletirem sobre sua condição social. Portanto, a dúvida que desperta a "presença performática" do Adegesto Patáca no meio da Praça, é uma das maneiras de provocar as pessoas a pensarem: "O que é isso? É realmente hoje o processo eleitoral? Por que não posso ver se não der o documento? Por que corpo de heróis com cabeça de político? São heróis ou vilões?" Todos esses questionamentos já ouvi das pessoas com quem interagi. E mesmo os que não chegam a ver o que tem dentro da caixa, a provocação para a reflexão sobre a questão democrática é colocada, pois Patáca ataca com questionamento: "Não sabia que o processo era hoje? Não se importa com a democracia? Qual é a arma do cidadão brasileiro?" A partir de tais questionamentos se desdobra a reflexão, não permitindo em nenhum momento ao espectador o lugar cômodo de observador passivo. Mas se resolvo colocar os fones de ouvido, penso que corro o risco de quebrar essa engrenagem da encenação. Lembro ainda que desde que estreei este projeto, pouquíssimas vezes as pessoas ao final da intervenção, me parabenizam ou comentam sobre a natureza artística do projeto. E mesmo os poucos que assim o fizeram, recebem a indiferença de Patáca que continua atuando pela lógica da encenação.

Agora exercitando o raciocínio tendo como objeto o teu projeto “Urbano”. Penso que se a sonoplastia vem de dentro da caixa (sem a utilização dos fones de ouvido), ela acaba por se confundir com os próprios ruídos da rua, estabelecendo uma relação de continuidade com a realidade que cerca a fábula. Encerrada a fábula, a janela da caixa se fecha, a sonoplastia finaliza, mas os ruídos da rua (os mesmo reproduzidos na sonoplastia) permanecem e acompanharam sempre o espectador que possivelmente será motivado a pensar sobre esses ruídos tendo como referencia a imagem de contraste (dentro da caixa) que ficou registrada em sua memória. É claro que atuação do performer continua sendo imprescindível, usando ou não o fone de ouvido.

Gostaria que esse debate fosse amadurecido por todos nós que estamos envolvidos nessa pesquisa, pensando como essa questão atravessa os outros projetos não citados aqui. Mãos a obra!!!!

segunda-feira, 15 de março de 2010

INTERVENÇÃO "URBANO" COM TRILHA SONORA

A Intervenção “Urbano” é mais um dos experimentos realizado por Anibal Pacha desenvolvido junto com o Grupo de Experimentação de Teatro em Miniatura (GETM).
O pequeno objeto, preso ao corpo do performer, tem como imagem externa uma metrópole confeccionada em papelão (suporte fechado) e dentro uma paisagem ribeirinha em miriti (conteúdo). O confronto dessas duas imagens convida o público ao deslocamento interno, a um tempo de pausa, de intervalo e de suspensão.

Esse trabalho teve sua estréia no dia 6 de dezembro de 2009, na Praça Batista Campos em Belém do Pará. Desde lá tem mantido apresentações sistemáticas nos finais de semana que inclui também a Praça da República. Essa seqüência de apresentação tem ajudado, junto com o público, no amadurecimento da proposta.

No domingo dia 14 de março foi acrescentando mais um elemento (o que faltava) a sonoplastia, utilizando MP3 e fones de ouvido para a execução. Esse novo elemento contribuiu para que o contraste das situações (externo e interno) ficasse mais em evidencia: a trilha sonora de um transito enlouquecedor com a cena tranqüila de uma imagem ribeirinha. Percebi que com esse novo elemento o público se aproximou muito mais tranqüilamente sem a desconfiança da “pegadinha”.


Tive que refazer a partitura corporal para introduzir mais este elemento. No início foi um pouco atrapalhado mais depois da vigésima apresentação tudo fluiu mais tranquilamente.

Chequei às 10:30 e sai às 14 horas com apresentações ininterruptas com um intervalo de segundos para uma água. Terminei as apresentações com a sensação que tinha fechado a idéia desse trabalho. Minutos depois me veio a pergunta: quem é esse performer (ator-manipulador) que carrega esse espetáculo na sua frente? Que imagem ele deve ter na leitura visual da forma no trabalho? Que corpo e que atitude ele deve apresentar no momento da intervenção?Perguntas e mais perguntas, não acabam nunca. Que bom. Mais um tempo para pensar e experimentar. Depois, é outro momento.

domingo, 14 de março de 2010

FÁBRICA ESPERANÇA

Os trabalhadores da Fábrica Esperança tiveram uma surpresa na tarde do dia 12 de março: era a participação do  GETM no encerramento das atividades da semana dedicada a mulher promovida pela coordenação da Fábrica. A entidade que trabalha com mais 400 pessoas na sua linha de produção, oferece aprendizado e profissionalização nas áreas de serigrafia, costura e confecção de bolas de futebol profissionais. Os olhares eram de estranhamento. "Quem eram aquelas pessoas com objetos estranhos invadindo nosso espaço de trabalho?" 


"Urbanus" projeto de Anibal Pacha apresentado no auditório  

"Meu carrinho minha vida" projeto de Karla Pessoa também apresentado no auditório

"Portas Atravessadas" de Edson Fernando também no auditório

Como os projetos de Karla Pessoa e Anibal Pacha possuem um carater de intervenção com maior mobilidade, eles puderam percorrer as dependencias da Fábrica, pegando de surpresa muitos que se encontravam em plena jornada de trabalho.  



Enquanto o projeto de Edson Fernando se instalou somente na auditório da Fábrica.


Enquanto isso Pacha e Pessoa percorreram todas as dependencias possiveis da entidade, proporcionando momentos de descontração, estranheza e muita curiosidade. 



A mudança foi imediata. Risos e curiosidade tomaram conta de cada andar do predio por onde apresentamos.



 Tarde muito agradável. Agradecemos o convite!

terça-feira, 9 de março de 2010

Curiosidade e Vaidade não tem Idade


Quem resiste a abordagem da simpática fotógrafa no meio da praça da república interpelando os passantes com uma simples pergunta: Você quer tirar uma fotografia??? Em meio aos descrentes e desconfiados, a grande maioria fica cativada com a proposta e logo procura melhorar o visual e escolher a melhor pose.


A intervenção, segundo a própria performer Mariléia Aguiar, "é uma bobagem" uma brincadeira que consegue provocar a curiosidade e vaidade de muitos.


A boa desenvoltura da performer desenvolvendo um dialógo natural, simples e direto ajuda a criar um clima de descontração e desprendimento que cativa adultos, jovens e até crianças de colo:


Nem mesmo quem está só a trabalho consegue resistir ao clima envolvente criado pela performer:


Após o famoso "olha o passarinho" (nome do trabalho de Mariléia), a performer ainda brinca e se diverte dizendo: "Olha essa ficou linda! Vou guardar pra mim!". 
Então se quiserem ser clicados também por essa excelente e divertida fotógrafa, basta visitar a Praça da República aos domingos. Se tiverem sorte serão também registrados pelas lentes da verdade de Mariléia Aguiar.   

segunda-feira, 8 de março de 2010

A SAGA DE PATÁCA Parte IV: PATÁCA E JURACI.

“Não chores se não puderes
teus sonhos realizar:
chora quando não tiveres
mais razão para sonhar”

Foi dessa forma poética que Juraci Siqueira, ilustre poeta e andarilho paraense, brindou e prestigiou a missão de nosso incansável mesário-herói Adegesto Patáca. Juraci manifestou seu apreço e incondicional apoio aos ideais “patacanses”, enchendo Adegesto de orgulho e entusiasmo.


Emocionado com a força das palavras de Juraci, Patáca as interpretou como um presságio: mesmo com o descaso descrente de grande parte da população com o trabalho desenvolvido por ele, não deve chorar ou esmorecer, mas sim continuar sonhando com o dia em que não precisaremos mais de heróis. Assim em meio àqueles descrentes, alienados, apressados ou mesmo aos que se fingem de surdos, Adegesto Patáca segue firme e cada vez mais convencido de que “Quem ri por último, é burro!!!”
Mas nem tudo são flores na saga de Patáca, e se por um lado ele recebeu apoio de um poeta, por outro ele foi ignorado e deixado de lado por outro artista paraense: Pedrinho Calado. Observe a aproximação incrédula de Pedrinho antes da abordagem de Patáca:


Em seguida ele procura um lugar estratégico para sentar e conferir a desenvoltura de nosso herói. Perceba que o ar de desconfiança permanece:


Quando interpelado por Patáca, Pedrinho simplesmente faz uma cara de “quem comeu e não gostou”, e resolve justificar seu sobrenome artístico: mantêm-se Calado, dando as costas em seguida pro nosso mesário, permanecendo assim até a saída de Patáca do recinto. Observe que mesmo quando Patáca já se encontra abordando outra cidadã, Pedrinho permanece de costas, a pretexto de conversas com amigos:


Felizmente Patáca sabe que quem Cala consente. A saga continua...

A POETICA DO OLHAR

Um gesto de coragem que impulsiona para o desconhecido.


TEM GENTE DE TODO OLHAR. O que espera chegar para olhar , o que é chamado para olhar , o amigo que vem só para olhar, o que já olhou e vem de novo olhar, o que se caga de medo de olhar, o que se recusa a olhar, o indiferente que parece nada olhar, o curioso que demora pra olhar, a criança que mais de uma vez quer olhar, o que ronda e depois de um tempo vem olhar, o que quer pagar depois de olhar, o que vai buscar o outro para olhar, o que sai puto depois de olhar, o que chega de cara feia e sai rindo com o olhar, o que ri de nervoso antes de olhar, o que procura saber como foi feito com o olhar, o que olha por baixo e torna a olhar, o que olha para sempre guardar.

Edson Fernando "Herois"


Anibal Pacha "Urbano"

Mariléa Aguiar "Olha o Passarinho"

OLHA NÓS OUTTRA VEZ

A Praça da República foi novamente o lugar da nossa intervenção. Hoje a praça estava animada com diversas atrações: show em comemoração ao dia Internacional da Mulher; desfile de cachorro em um palco do lado do Teatro Waldemar Henrique; roda de percussão; roda de capoeira de mulheres; dança de rua e nós.
Marcamos nosso encontro na frente ao Instituto de Ciência das Artes. De lá saímos, eu, Anibal Pacha com “Urbano”, Edson Fernando com “Heróis”, Mariléa Aguiar com “Olha o Passarinho” e Lane Martins no registro fotográfico, para mais uma jornada de surpresar e investigação do que estamos fazendo.
Começamos no anfiteatro da praça e de lá nos dispersamos, só fomos nos encontrar novamente já bem mais tarde no corredor dos artesanatos.

Eu, Anibal Pacha, apresentei muito, mas não superou o domingo passado com o “Mundo Doente”. Alguns têm muito receio de olhar, sempre acham que é uma pegadinha, depois que alguém começa o restante fica curioso para saber o que tem lá dentro. O comentário de quem não viu, e fica em volta é sempre de atiçar os outros dizendo que acontece lá dentro é uma sacanagem e que vai pular ou espirrar alguma coisa.


Fernando, mesmo com todas as suas interpelações do mesário Adegesto Patáca, por exemplo: pedir a identidade; abordar as pessoas com uma série de perguntas e aguentar a cara da personagem que afugenta qualquer um, bateu o recorde com mais de 60 intervenções.



“Olha o Passarinho” é sempre uma grande surpresa. É muito bom ver a reação das pessoas neste trabalho. Da cara de nada até as explosões de risos que paralisa quem está passando e que fica morto de curiosidade.


Conseguimos mais uma vez alterar o estado das pessoas que naquele momento abriu a porta para a sua alma se entregar para outra dimensão onde tudo é possível. Valeu. INTÉ MAIS.